arrudiando lâmpadas
É uma Lagrima

Era um sinal imperceptível, no começo. Porque o espelho, tão cansado do meu pouco vê-lo, deu para economizar detalhes. Exceto nos dias de compromisso, porque nesses, o zelo é maior, os pelos do nariz são retirados, aquele cravo na testa, expulso, e a barba aparada. Nesses dias, o espelho cumpre seu papel e qualquer sinal fica visível. Como os compromissos rarearam e o trabalho permitia um certo descuido com a imagem, o espelho andava poupando-me de detalhes. O que ele não escondia, nem podia, era uma tristeza perene, de certo modo suave, que se instalara sorrateira e já denileava uns traços charros.

Bem lembro que me acompanha desde sempre essa tal tristeza. É nela que apoiei a maior parte do lirismo que produzi, e através dela que renasço gente, capaz de entender o que se apresenta humano. É essa tristeza que andou riscando sulcos na minha pele e calos no peito. É ela que parece ter marcado o meu rosto com um sinal, impercetível, no começo, e que agora salienta-se na pele.

A dialética de Vinícius de Moraes socorre quem de tristeza padece. “É claro que a vida é boa e a alegria, a única indizível emoção. É claro que te acho linda e em ti bendigo o amor das coisas simples. É claro que te amo e tenho tudo para ser feliz, mas acontece que eu sou triste”. Ser triste, como ser moreno, ou magro ou baixo. Uma roupa que serve, um chapéu. Tudo é tão bonito e eu sou triste. Uma tristeza de quem já muito amou, mas tanto desama, desespera e mofa; Uma tristeza de quem teme perdas, e por isso, das conquistas troça. É essa pessoa que olho no espelho e em quem percebo um sinal esbranquiçado dois centímetros abaixo do olho direito. É disforme, parece ter pontas. Verruga estranha.

Passa o tempo, não passa esse estado gris, essa nostalgia. O sinal está bem visível agora. Algumas pessoas aproximam as mãos para espantar o que pensam ser um inseto ou um cisco. Comento ser uma verruga e elas recolhem as mãos vexadas. É estranho esse sinal ganhando destaque no meu rosto. Envergonho-me dele e já pensei em amarrar-lhe uma linha vermelha e esmagá-lo até que caia fora de mim, mas ouço conselhos de que com isso não se brinca. Melhor seria procurar um médico, digo que sim e penso em dia propício, mas não vou.

Ontem, olhei demoradamente para esse estranho sinal, essa incômoda verruga com a intenção de entendê-la. Ela é esbranquiçada, ao contrário das verrugas comuns, não tem forma arredondada, pelo contrário, tem pontas, como estalactites. Dois centímetros abaixo dos olhos, cristalizada, feia, cadente… É uma lágrima. Minha velha tristeza cristalizou-se. É uma lágrima que habita meu rosto para sempre agora.

  1. juraarruda publicou esta postagem